O poeta António Carlos Cortez escreve dez contos, dez cenas portuguesas e enreda-nos em sua prosa tensa, terna e forte, quase cruel, cheia de belas metáforas, enfeitiça-nos pelas frases preciosas que vão sendo encontradas ao correr das linhas, como em um garimpo a que nos dedicamos com confiança, fé e destreza.
Em sua entrevista à RTP, um alerta importante aos leitores, de um autor que nunca se dispôs a entrar em futebóis-fáceis:
“Portugal é um país que tem um substrato fascista que o 25 de abril não conseguiu apagar. É um país de censores. Nós somos os censores de nós próprios e os censores do próximo.”
Neste “Cenas portuguesas”, que vem a lume em 2024, António escreve sob uma censura surda, resistente através dos séculos, que não se fala abertamente e nem se vê, mas que se faz sentir por tentáculos de julgamentos silenciosos, que se insinua entre cartas de leitores e comentários mordazes às notícias de jornal. Uma censura por vezes incompreensível para quem vem de fora e acredita que o cartão postal do Tejo e a Ponte vermelha exibem, orgulhosos, a morada da felicidade.
É com sua prosa que notamos a elegância europeia, herdeira de uma tradição culta que insiste em sobreviver (desde Camões), apesar de tudo. “Vivemos a vida por entre os pingos da chuva”, nos diz António, enquanto refaz a linha da vida e da mortalidade, para criar algo que lhe dê a “certeza de que estivemos aqui”.
É com essa mesma prosa, que precisa ser tanto mais indiscreta quanto mais verdadeira, que ele nos puxa pela mão para um quarto sombrio, um calabouço onde se guardam os segredos lusos mais ásperos, para tudo aquilo que gostamos de fingir que não tínhamos percebido.
Entramos com António neste quarto de horrores, onde se confidencia, em sussurros, tudo aquilo que, como Adamastor, precisa ser jogado no fundo do mar e que retorna como tempestade e tormenta.
Como no livro “Ciências Morais”, de Martin Kohan, em “Cenas portuguesas” o escritor fala daquelas pessoas obedientes que, sem o traquejo social e sem os suportes de família, perdem-se no escuro do mundo, entram em jaulas invisíveis, sociais, de castas mesmo, das quais apenas sairão pelo beneplácito da morte. Literatura de verdade, e não um remédio antimonotonia: é disso que eu falo.

Os ex-torturadores policialescos, as senhoras “pidescas” fiscais dos costumes, as mulheres sem verniz, sem lastro ou história, os homens sem sobrenome, todos são presas fáceis para que entrem num labirinto de Creta, até que sejam devorados pelo Minotauro da violência e do crime, que espreita ávido, justo ali pela porta. António Carlos Cortez exibe os corvos, cobras e chacais, os jaguares, que já apareceram antes nos seus balés macabros de versos, na dança trágica de deidades Eros e Tânatos que se escondem e se exibem sob os leques sedutores da sua poesia. Como diz o autor, tradição, memória, historicidade, este é o tríduo que deve compor a literatura. E há uma coisa nos autores com mais de 40 anos: é que eles habitam um mundo que mudou, um mundo que lhes escapa de certa maneira, habitam um mundo em que muitos dos personagens já morreram, e por isso podem ser eternizados no papel.
Essa é a liberdade dos escritores mais velhos: na antessala da finitude, também neles reside vívida a memória, a tradição, a historicidade. E assim é que, com coragem e verdade, narram as histórias do seu tempo, ficcionais ou quase, capazes de ilustrar tudo aquilo que pôde se ver e, por algum largo tempo, ficou preso na garganta, emudecido à força, amordaçado, amaldiçoado, porque estava naquela lista de “o que não pode ser dito”, como no título de António Ramos Rosa.
Neste momento, as minhas histórias também se assomam, batem à porta como fantasmas do porão da casa. Gritam e pedem para sair, quando antes vinham apenas por frases curtas e versos de poesia, que nasciam na hora do diabo. Mas, não sei, ainda não agora.
Leio António e por vezes escuto os ecos da minha juventude, voluptuosa, cheia de desejo e cores, de sal e poesia e cantos de cigarra, já agora abandonada do outro lado do Atlântico.
As Cenas de António se materializam, tomam corpo e vulto, como as visões noturnas, quase posso tocar em Linda de Guadalupe, ou no Armando Jorge, ou no João Rato, nas versões tão minhas que vi nascerem em terras cariocas.

Em 1980, ainda antes da ditadura acabar, quantas Lindas desejaram ser “modelo manequim” e tornaram-se escravas; quantos Armandos eram incensados nos meios jurídicos até que alguém acabasse com aquela idiotice de escrever com o dicionário de latim para desgraçar famílias; quantos Senhores Rato usaram sacos plásticos (e os usam até hoje) como punição final para as vidas que não importam que continuem a respirar? Sem querer contar mais detalhes das Cenas Portuguesas narradas por António, digo ainda que elas encadeiam-se e enroscam-se entre si, feito uma cobra de língua bífida, perigosa e arrebatadora, de modo que concordo com o editor Francisco José Viegas, que nelas viu um romance fragmentado. No livro, há uma só história, decomposta entre tantas vidas, entre tantos prismas: recria-se Portugal, sua hospitalidade e seu desprezo, sua elegância e sua mesquinhez, seu riso e seu desdém, sua religiosidade e sua heresia, sua confiança e seus medos profundos, seus modos de viver e de se blindar contra os inimigos, de sobreviver e enfrentar a voragem do tempo e da carestia.
Assim como vemos um gato assustado, de rua, deixado ao relento sem água, que mais bufa quanto mais padece, assim se mostram os personagens de António: covardes mas valentes, frágeis mas resistentes, tristes mas impávidos, perdidos mas cheios de altivez. “As memórias são como risos perdidos no pó”, ou seriam mais “gritos escondidos no pó”? Com um reencontro imaginado entre os amigos, é assim que António arremata as suas histórias, puxa-nos pelo pulso com a firmeza que lhe é peculiar, e sai daquele quarto escuro conosco, deixando Linda, Armando, Rato e tantos outros, feito espectros (ou Nazgûl) a urrar nos porões do mundo, no fundo do Cabo das Tormentas a conjurar tempestades. Feito um Jumanji que se materializa, ou um livro que adivinha o avanço da escuridão e do fim do mundo (como no romance de Michael Ende), lembramos da mortalidade e que tudo tem um fim. Até as histórias sombrias.
Encontramos a placidez dos olhos semi-esverdeados, tão de sorriso aberto, e desfaz-se o feitiço que se guarda nas folhas desse livro infinito, um livro que nos convida para a leitura, no sereno da cama, no escuro do tempo, entreabre a porta para segredar-nos histórias belas e terríveis, suaves e indeléveis, inesquecíveis.

Paula Cajaty é escritora e editora, graduada em Direito e mestre em Ciência Política (ISCTE, Lisboa). Publicou ‘Afrodite in verso’ e ‘Sexo, tempo e poesia’ (2008 e 2010, 7Letras), ‘Guia essencial de autores iniciantes’, ‘Partiu Portugal: o guia essencial para estudantes’ e ‘Enquanto você não olha’ (ed. Jaguatirica). Colaborou durante dois anos para o Jornal Rascunho e publicou em coletâneas da Rocco, Oito e Meio e Seleções Reader’s Digest. Como CEO da Jaguatirica (Rio de Janeiro), da Gato-Bravo (Lisboa) e da FelisPress Books (Miami), gerencia um catálogo de mais de 600 títulos, entre impressos, ebooks e audiobooks. Coordena demandas de agenciamento, consultoria e serviços editoriais na Bookxpress. Diretora da LIBRE – Liga Brasileira de Editoras, membro da CPCLP, AIPE, IBPA, ABCP, e do Cercle des Éditeurs. Realizou palestras para NESPE, Universidade de Aveiro e LIBRE. Já apresentou livros e projetos nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Lisboa, Óbidos, Frankfurt, Istambul, Berlim, Londres, Buenos Aires, Bogotá, Abu-Dhabi e Sharjah (UAE) e em Tai’an, na China.